Nada irrita mais um passageiro atrasado que um taxista de bem com a vida. O tipo de taxista que fica tamborilando com os dedos no volante enquanto o sinal está vermelho, o tipo que canta baixinho e balança a cabeça ao som de Nana Caymmi, esse tipo irritante de taxista que não entra no clima de ansiedade do seu passageiro atrasado.
Respondo que ele (o tempo) adormece as paixões, eu desperto, confirma a Nana, bem a propósito, composição do Blanc.

A mulher aproveita a corrida para trocar a fralda do bebê. OK, faz parte, abro uma fresta na janela.
Agora adivinhe o que a passageira da corrida seguinte encontra, descartada no cantinho do banco traseiro do meu táxi.

Acertou quem pensou em uma fralda cagada.

Rosa Inglesa

Primeira passageira da semana é a Cheirosa – nunca perguntei seu nome. Costuma passar a corrida elaborando complexos coques com os quais reprime seus bastos cabelos negros. A morena selvagem desembarca do táxi com elegância executiva. Mas de todas as características dessa passageira (e são muitas, garanto) a que mais me chama a atenção são os aromas que exala. Perfumes tão sofisticados quanto seus penteados. A fragrância de hoje: English Rose.
Peguei o passageiro em uma revenda Mercedes. Acredito que o próprio gerente da loja veio abrir a porta do táxi tal a importância que parecia ter o homem. Ele estava com pressa. Muita pressa. E irritado, discutia ao celular – problemas com a fazenda de gado.

Entre uma ligação irada e outra, oferecí-lhe meu livro. Vinte pilas. “Se me sobrar um troco…” e voltou a salivar xingamentos ao telefone.
Só o que o homem carregava em seu braço esquerdo (aliança, pulseiras, Rolex e Ihone) dava pra comprar meu táxi e sobrava dinheiro. No final da corrida, ainda destilava palavrões ao celular. Achei mais prudente não lembrá-lo do livro. Ao desembarcar, deixou cair uma embalagem de comprimido sobre o banco. Como estava vazia, sequer o alertei. Rivotril.

Minha passageira era uma baixinha simpática e falante. Usava um vestidinho daqueles com uma cinta fina logo abaixo dos seios (não entendo lhufas de moda, mas essa sofrível descrição é importante aqui), o que deixava a “bata” (?) mais curta na parte da frente, salientando o abdômen dilatado da mulher. Pediu que eu a levasse até o Hospital Fêmina (referência no atendimento à gestantes).
Enquanto procurava o dinheiro para pagar a corrida, perguntei se já sabia o sexo do futuro filho. Distraída ela fez cara de desentendida. Imbecil, ainda insisti na pergunta, agora apontando o queixo para a barriga da coitada.
Não, ela não estava grávida. Era médica naquele hospital…
Difícil conviver com a culpa de ter, provavelmente, arruinado o dia de uma mulher.

Toda garbosa no banco traseiro do meu táxi, a idosa explica porque não pode comprar meu livro (R$20): vai gastar R$80 mil no conserto do telhado da sua casa em Punta.
Informo que a corrida custou R$12,50. Ela me passa duas notas: uma de dez e outra de cem!! Eu tento avisá-la do engano, mas ela está ocupada procurando as moedas. A muito custo, consigo fazê-la trocar a nota de cem por uma de dois. Ela me agradece sem muito entusiasmo e segue procurando as moedinhas. Consegue reunir apenas R$0,45. Pergunta se pode ser assim….
Fechado.

Fim de expediente, a mulher embarca no meu táxi digitando ao smartphone. Sequer me olha. Informa o destino da corrida sem tirar os olhos da sua tela superamoled. É uma passageira típica desses tempos. Digita compulsivamente, não pisca. Blz.
Toc, toc, toc, toc, plim, toc, toc, plim, plim, toc, toc, toc, toc, toc, plim, plim, plim, toc, plim, kkkkkk, plim, toc, toc, toc, toc.

Ao final da corrida, por fim, levanta os olhos. Enquanto procuro o troco, ela procura as chaves da casa. Lembra que estão no carro. Lembra que foi de carro para o trabalho! Religa o taxímetro. Volta ao ponto de partida.
Toc, toc, plim, toc, toc, toc, kkk, curti.